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Cássia Janeiro
Artigo: Sobre bichas, boiolas e sapatões.
Publicado em:
10 de setembro de 2007
às 10h05
Sobre bichas, boiolas e sapatões

“Futebol é um jogo viril, varonil, não homossexual ". Assim, um jogador homossexual deve “abandonar os gramados”. Essa foi a sentença proferida pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira contra o jogador do São Paulo, Richarlyson.

A sentença é tão infeliz que não há muito que comentar a respeito. A estupidez costuma falar por si. O difícil é aceitar que pessoas desse tipo estejam julgando o que é certo e o que é errado.

A discriminação no Brasil, entretanto, não é pontual, é mais comum do que se pensa. Às vezes é velada, outras, explícita. Todo mundo acha normal que se conte piadinhas “inocentes” contra gays. É comum ouvir as palavras “bicha, boiola e sapatão” para se referir às pessoas com opção sexual diferente do que se espera ou do que é considerado como “normal”.

No mundo do trabalho não é diferente. Homossexuais são, quando muito, tolerados, mas não deixam de estar à mercê de uma enorme gama de preconceitos e chacotas. Não raro, são vistos como tarados natos, pessoas que não selecionam seus parceiros e que podem “atacar” a qualquer momento. Há os que afirmam não ter preconceito “desde que não chegue perto...”. É triste que, no século XXI, a Idade Média esteja em alta.

Os meios de comunicação não ajudam e atrapalham muito. Além de colocar duas homossexuais no meio do fogo numa novela, disseminam-se imagens caricatas de gays em programas, especialmente os humorísticos. Piadinhas não faltam e todas elas pretendem ser “apenas uma piada”. Nunca ouvi uma piada que começasse assim: “Tinha um homem branco...”. Porque o mundo é masculino, adulto e branco. Para a nossa infelicidade.

Em nossa sociedade, a homossexualidade é personificada. Dizem que fulano é médico, que sicrano é professor e que aquele ali é gay. Como se homossexuais fossem apenas seres sexuais, seu único ou principal atributo e papel que exercem na sociedade.

Como se não bastasse o martírio psicológico, o cenário reforça a idéia que dá suporte à agressão física e aos assassinatos. O Brasil é campeão mundial de assassinatos de homossexuais, com uma média de 104 mortes por ano (cálculo de 2002). O levantamento é coordenado pelo Professor da Universidade Federal da Bahia, Luiz Mott, uma das mais notáveis figuras no combate à discriminação.

O mundo do trabalho ainda é estreito, preconceituoso, caricato e incrivelmente tardio em reconhecer profissionais independente de quaisquer outras características absolutamente irrelevantes ao desempenho profissional.

Sentenças como a do juiz apenas ilustram o que acontece veladamente. Os trabalhos e estudos efetuados em torno das desigualdades de gênero no Brasil preconizam apenas a luta pela igualdade entre homens e mulheres, sem tocar no assunto da homossexualidade. Combater o preconceito à homossexualidade (e não homossexualismo, expressão ainda presa aos antigos padrões psiquiátricos, quando era considerada uma doença, daí o sufixo “ismo”) no trabalho é também combater o preconceito para além dele, é uma questão de saber a quem nos referimos quando falamos em “todos”. Afinal, quem cabe nesse “todos”?

Cássia Janeiro
Escritora, poeta e educadora

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