| Virou moda falar em ecologia? Desconfio... Todos os discursos politicamente corretos são quase imediatamente taxados. Agora é a vez de se falar sobre a moda da ecologia e sobre os “ecochatos”.
É verdade que nunca se falou tanto sobre o assunto. Lembro-me, porém, que, desde adolescente, ouço falar em efeito estufa e o problema da poluição já era tema de novela em “Cidade Alerta”, de 1979. “Sensacionalismo” era uma palavra comum para dizer que a turma da ecologia estava se preocupando à toa. O progresso, outra palavra que estava na pauta, era importante e quem o atrapalhasse ou visse nele uma ameaça, era “quadrado” ou “careta”.
Esses termos parecem engraçados hoje, tão fora de moda ficaram. Na minha época um rapaz bonito era “pão” ou “broto”, falou, bicho? Eu cresci ouvindo Beatles, Rolling Stones, Bee Gees, Queen, Abba... e o que dizer do nosso Chico, Ivan Lins, Toquinho e Vinícius, Oswaldo Montenegro, Guilherme Arantes, Balão Mágico, Rita Lee, Secos & Molhados... ficaram muitos fora dessa lista improvisada. Voltando ao nosso tema, já se falava sobre desmatamento, poluição e efeito estufa. O problema da água veio depois. Também ouvia algo sobre o petróleo e uma professora alertava que um dia ele acabaria.
Aprendíamos muito sobre a pátria, sobre a importância de amá-la ou deixá-la e torcíamos para o Brasil nas copas, o melhor futebol do mundo. Surgiu o Milagre Brasileiro, a classe média foi ao paraíso e ninguém perguntava às custas de que. Não nos ensinaram a amar nosso planeta, a tratá-lo como nossa casa. Era comum ver casacos de pele como sinônimo de poder e luxo, cigarros como charme e, um paradoxo, como saúde, em comerciais que mostravam homens atléticos fumando. Os vegetarianos eram vistos como um grupo de bichos chatos. Minha cidade, São Paulo, era cada vez mais suja e nos demos conta de como ela poderia ficar ainda pior numa greve de lixeiros. Não separávamos o lixo, que saíram dos latões e foram parar nos saquinhos plásticos. A limpeza da cidade virou uma campanha, cujo mote era “cidade civilizada, cidade limpa”, salvo engano. E houve também a campanha pela despoluição de Cubatão.
Ninguém da minha geração, suponho, imaginou que chegaríamos onde chegamos hoje. Falo por mim, que ainda fico de boca aberta vendo como o tempo passou e como não impedimos a atual situação. Ouço com atenção, aprendo e mudei meus hábitos totalmente. Ensino meus filhos e todos que encontro. Educação ambiental começa em casa. Fica uma sensação de muito tempo perdido, de descaso com o nosso maior lar.
Há uma corrida pelo reparo, pela sobrevivência. Não do Planeta, mas do ser humano. O Planeta sobrevive. Há programas hoje mostrando como a Terra ficaria muito bem sem nós. A luta é nossa. O que podemos fazer? Quando uma pessoa perguntou ao Dalai Lama como poderia ajudar o Planeta, ele respondeu: “quando sair, apague a luz”. Parece uma coisa simples, simplória até, frente à enormidade do problema, mas o certo é que podemos agir todos os dias.
O ser humano é o único que pode escolher, conscientemente, entre preservar e destruir. É uma questão de decisão. Nós escolhemos todos os dias. Elegemos os produtos que vamos comprar no supermercado e, portanto, damos o nosso aval às empresas que os fabricam. É urgente não nos enganarmos mais. No mercado, entre os pães integrais, há apenas uma marca que vende pão 100% integral. O resto leva o rótulo e tem entre 10% e 5% de farinha integral. Deixemos de comprar! Nós, consumidores, temos muito mais poder do que imaginamos. Há produtos que foram testados em animais, outros de empresas que não preservam a natureza, cabe a nós fazermos essas escolhas.
Quando colocamos um produto em nosso carrinho, estamos dizendo: “eu aprovo esta marca, eu aprovo a política de ação desta empresa”. Assim, em nossas casas, em nossas compras, no nosso dia-a-dia, tratemos nos cuidar, passando de uma ecologia pessoal para uma ecologia social e, finalmente, uma ecologia planetária e cósmica. Tudo começa conosco, com a nossa atitude frente à vida. Cuidar de nós e dessa enorme casa, que é a Terra, exige uma postura para além do gosto/não gosto; trata-se, agora, de pensar, a cada garfada, a cada compra, a cada banho, se o que estou fazendo vai no sentido de preservar ou de destruir. Cada atitude conta, cada minuto conta. Falamos tanto em ecologia hoje porque agora, quem corre o risco de extinção, somos nós.
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