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Cássia Janeiro
Artigo: Bipolaridade é moda?
Publicado em:
10 de outubro de 2007
às 22h15
Bipolaridade é moda?

Recentemente muitos artistas declararam ser portadores da Doença Maníaco-depressiva ou Transtorno Bipolar, como hoje é chamado. A lista é grande, tanto dos contemporâneos quanto dos que já nos deixaram: Van Gogh, Virginia Woolf, Paul Gauguin, Marlon Brando, Ernest Hemingway, Silvia Plat, Baudelaire, Alan Poe etc. Cássia Kiss e Stephen Fry são os mais comentados do momento por terem exposto suas feridas em público, fato que traz inúmeros benefícios quando se fala em combater o estigma que cerca as doenças mentais.

Certo dia fui dar uma entrevista num canal de TV por ocasião do lançamento do meu livro. O entrevistado que me antecedeu era um psicólogo famoso. Nos bastidores, o gentil apresentador nos chamou e disse que eu era bipolar. Para meu espanto, o psicólogo disse: “E quem não é?” Fiz uma lista para ele de quem não era: quem não tem oscilações patológicas, quem não tem predisposição genética, quem não precisa tomar remédio para o resto da vida... Enfim, a resposta do eminente psicólogo demonstra o nível de discussão a respeito de uma doença crônica, biológica (e não psicológica), potencialmente fatal e apenas controlável, mas incurável. Qual o impacto da patologia na vida de uma pessoa e no seu ambiente de trabalho?

As estatísticas mostram que, entre bipolares não tratados, 20% cometem suicídio. Metade faz ao menos uma tentativa, mas 30% escapam. É a doença que mais mata (inclua-se aí a depressão bipolar), ganhando mesmo de problemas cardíacos.

Do total de suicídios, 98% se dão entre pessoas com transtornos mentais. Cerca de 36% acontecem entre bipolares, o maior percentual. A depressão é a primeira causa de afastamento do trabalho do mundo. Devemos considerar, contudo, que 40% das pessoas classificadas como somente depressivas (unipolares) são, na realidade, bipolares.

No Brasil a média de internações por transtorno mental é de 60,5 dias. Portadores de Transtorno Bipolar (TBP) perdem, em média 65 dias de trabalho anualmente, somados aos 27 dias por aqueles acometidos por depressão. Entre os fatores estão as crises, que levam à hipo ou hipersonia, à dificuldade de se adaptar a uma rotina de trabalho e aos medicamentos. Por desconhecimento, essas pessoas, que sofrem profundamente, são classificadas como preguiçosas, inconstantes etc.

Em estado de mania ou hipomania, a pessoa praticamente não tem necessidade de sono e pode virar noites e noites trabalhando. A alta produtividade é aceita e estimulada, recebe elogios, mas poucos sabem que a hiperatividade tem um custo muito caro para os bipolares.

Como se tratar? O TBP não é diagnosticado pela depressão, que é quando a maior parte dos doentes procura um psiquiatra. Para ser bipolar, o indivíduo tem que ter tido pelo menos um episódio de mania ou hipomania. A doença demora, em média, 10 anos para ser diagnosticada e as pessoas passam por, pelo menos, 7 psiquiatras. A dificuldade está justamente em separar a depressão unipolar da bipolar. Um antidepressivo para um bipolar (sem regulador de humor), pode equivaler a dar um revólver em suas mãos. É a energia que falta para que o sujeito, que antes não tinha nenhuma força, acabe se suicidando. Por isso, é importante que, ao procurar um psiquiatra, o paciente seja claro quanto à sua genética (pais, irmãos, avós, tios, primos etc) e quanto aos episódios de mania ou hipomania, se houver.

O tratamento para TBP é medicamentoso (para o resto da vida), com estabilizador de humor e, em alguns casos, associado a antidepressivos. A psicoterapia tem papel importante, desde que acompanhada pelo medicamento, que é essencial. Bipolares que não se tratam vivem, em média, 8 anos menos que a população geral. A aderência ao medicamento é essencial para o equilíbrio.

Pessoas com transtornos mentais ou doença mental continuam a ser prejudicadas e discriminadas em todas as áreas de suas vidas, como encontrar um lugar para viver ou um trabalho. Não é surpreendente que muitos com doença mental grave terminem pobres ou sem teto. Cabe a todos nós tomarmos conhecimento do dano que provocamos com nossas atitudes e nossos preconceitos.

Os transtornos mentais afetam não apenas quem sofre deles, mas a família, os amigos e, se formos pensar solidariamente, a todos.

Como reconhecer a mania?

Para ter característica de mania é necessário ter 3 ou mais sintomas abaixo descritos:

  • sensação de grandiosidade, a pessoa se acha o máximo ou fica irritada sem motivo;
  • gasta muito dinheiro em coisas sem importância e pode fazer dívidas desnecessárias;
  • diminui o número de horas que dorme, sem perder energia ou ânimo;
  • tem muitas idéias, pensamento rápido;
  • fala rápido (tagarela), pulando de um assunto para outro;
  • não consegue prestar atenção por muito tempo em uma coisa, distrai-se facilmente, age sem pensar;
  • corre riscos, não vê perigo por se achar “poderoso” (dirige perigosamente, briga verbal ou fisicamente com desconhecidos, envolve-se sexualmente com várias pessoas);
  • pode usar álcool e drogas;
  • tem a sensação de ser poderoso, de ter habilidades e dons especiais, de ser invencível;
  • agride as pessoas fisicamente ou com palavras;
  • perde ou diminui a capacidade de analisar as situações;
  • em casos mais graves, pode ver coisas, ouvir vozes e delirar;
  • fica muito irritado ou alegre demais, exageradamente, sem nenhum motivo.

*A hipomania é um estado de euforia um pouco mais leve que a mania e pode ser tão ou mais grave, já que, na maioria das vezes, ninguém repara e é confundida com estados de alegria, muito trabalho ou de irritação. Isso dura dependendo da pessoa. Às vezes, pode levar anos sem que ninguém perceba.

Como reconhecer a depressão?

A depressão é geralmente confundida com tristeza. Mas a tristeza é um sentimento comum quando acontece alguma coisa ruim em nossa vida. Quando esse sentimento demora demais ou não tem sentido para quem olha de fora, pode-se falar em depressão. Ela pode se arrastar por dias, meses ou até anos.

Os principais sintomas são:

•  sentimentos profundos de tristeza;

•  sensação de vazio, falta de esperança que, em alguns casos, pode se mostrar como irritação;

•  perda ou diminuição do interesse por coisas que antes davam prazer (trabalho, diversão, sexo);

•  diminuição ou aumento de peso/apetite;

•  excesso ou diminuição da necessidade de sono;

•  inquietação ou sensação de estar mais lento para fazer tarefas que antes fazia sem dificuldade;

•  cansaço exagerado, sensação de fraqueza;

•  pensa que é inútil, é pessimista, se desvaloriza e se sente culpado;

•  não consegue pensar direito, se decidir ou lembrar das coisas;

•  pensa em morte e pode fazer planos para se matar;

•  tem dores ou outros sintomas físicos sem causa nenhuma.

Como reconhecer o estado misto?

O paciente:

  • fica maníaco e depressivo ao mesmo tempo (pensamentos ruins e angustiantes de forma muito rápida);
  • muda de humor sem motivo nenhum. A pessoa pode sentir-se deprimida pela manhã e eufórica com o passar do dia, ou o contrário;
  • fica agitado e angustiado, não tem esperança e tem vontade de morrer. Pode ter ataques de raiva, e ficar explosivo;
  • não consegue dormir e come demais ou de menos;
  • em casos mais graves, o paciente pode ver coisas e ouvir vozes;
  • pode chorar e rir ao mesmo tempo ou chorar e depois rir sem motivo nenhum e mudar de repente.

A característica mais marcante no episódio misto é um sentimento ruim, de um peso no peito, de tristeza e de angústia misturados, mas muito agitado e, às vezes, com raiva.

Saiba mais:

•  ABRATA - Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos: www.abrata.com.br .

•  Instituto de Psiquiatria-Hospital das Clínicas-FMUSP - Grupo de Estudos de Doenças Afetivas –GRUDA: www.hcnet.usp.br .

•  PRODAF - Programa de Distúrbios Afetivos e Ansiosos: www.unifesp.br/dpsiq/grupos/assistenc.htm .

•  Hospital de Clínicas de Porto Alegre - HCPA/Laboratório de Psiquiatria Molecular: www.pesquisabipolar.com.net .

•  STABILITAS - Associação dos Usuários de Estabilizadores do Humor Familiares e Amigos: www.stabilitas.kit.net .

Sites sobre bipolaridade

•  www.bipolaridade.com.br

•  Associação Brasileira de Transtorno Bipolar
www.abt.org.br

•  Janssen-Cilag
www.janssen-cilag.pt/disease/detail.jhtml?itemname=bipolar

•  Portal de Psiquiatria http://virtualpsy.locaweb.com.br/index.php?art=367&sec=26

•  Psicosite
www.psicosite.com.br

•  UNIFESP - EPM
www.unifesp.br

•  CREMESP – Conselho Regional de Medicina de São Paulo www.cremesp.org.br

•  Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Bipolares www.adeb.pt

Livros

TÍTULO

AUTOR

1. Bipolaridade e Temperamento Forte

Diogo Lara

2. Da Psicose Maníaco-Depressiva ao Espectro Bipolar

Ricardo e Doris Moreno

3. Dentro da Chuva Amarela

Walter Moreira

4. Digerindo a Bipolaridade

Alexandre Fiúza

5. Não sou uma só: o Diário de uma Bipolar

W. Marina

6. O Brilho de sua Luz

Danielle Stell

7. Perturbação Bipolar – Guia para Doentes suas Famílias

Francis Mondimore

8. Quando a Noite Cai – Entendendo o Suicídio

Kay Redfield Jamison

9. Touched wih Fire

Kay Redfield Jamison

10. Uma Viagem entre o Céu e o Inferno

Luiz Humberto Leite Lopes

11. Uma Mente Inquieta

Kay Redfield Jaminson

12. Um Bipolar que deu Certo

João Henrique Machado de Ávila



Filme:

•  Mr. Jones- filme com Richard Geere

•  Documentário do ator Stephen Fry em 14 partes. Abaixo, o link da Parte 1. As demais podem ser vistas ao clicar no lado direito da tela seguindo a seqüência.

http://www.youtube.com/watch?v=iO_ESsTVf78

 

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