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Cássia Janeiro
Artigo: Mercado de trabalho: gênero e ditadura da beleza.
Publicado em:
25 de outubro de 2007
às 11h40
Mercado de trabalho: gênero e ditadura da beleza

A imagem da mulher como objeto é mais do que um discurso ultrapassado, mas um fato aceito indiscriminadamente na literatura, na mídia de um modo geral e na propaganda particularmente. O comportamento cotidiano absorve como natural o que é construído culturalmente por uma sociedade patológica. A mulher real está muito distante da mulher que os meios de comunicação veiculam (um objeto educado para atender as necessidades e as fantasias masculinas), mas é a mulher ideal que deve abastecer certo nicho do mercado de trabalho.

Ir de encontro ao discurso majoritário exige não apenas esclarecimento, mas coragem para enfrentar uma demanda já conhecida, com paradigmas amplamente aceitos e reforçados. Estereótipos como o de sensualidade, do “toque feminino” (sempre algo absolutamente supérfluo, mas “encantador”) devem ser combatidos com afinco. A superação desse modelo é primordial para ultrapassar a barreira opressiva que recai sobre as mulheres e para vislumbrar uma sociedade mais equânime.

A imagem da mulher-acessório, que vende de cerveja a carros, deve ser combatida para que possa emergir um ser integral em condições de igualdade de oportunidades pessoais e profissionais. Essa igualdade deve começar a ser buscada dentro de casa e começa com uma nova educação dos filhos e dos parceiros. Nesse contexto, o homem não é mais aquele que “ajuda” nos afazeres domésticos, mas aquele que cumpre mais um papel que, de resto, não deve ser preestabelecido. Não cabe exclusivamente à mulher cumprir jornada dupla nem ter super-poderes capazes de dar conta da organização do lar, da educação dos filhos e do trabalho que exerce fora de casa. É algo que deve ser compartilhado naturalmente com o companheiro.

A construção da identidade da mulher no mercado de trabalho exige também a superação dos estereótipos de beleza geradores de grande frustração e exclusão social, econômica e social, com danos psicológicos que só agora começam a ser configurados.

O assunto é tratado com grande cinismo pelos meios de comunicação, que, de resto, se alimentam dos padrões que impõem. O mercado de trabalho da moda e do entretenimento sempre viveu de um certo tipo de exploração da imagem, uma imagem praticamente inalcançável para pessoas comuns. Modelos e mulheres comuns são expostas a essa perversão. Com massa corporal inferior aos padrões estabelecidos como saudáveis pela Organização Mundial de Saúde (OMS), as top models são mercadoria até os vinte e poucos anos e depois, descartadas. Desde pequenas, as mulheres são educadas para satisfazer o mundo masculino. Assim, na infância são expostas a programas infantis que comercializam apresentadoras: pouca roupa e padrão de beleza também definido, um modelo que se repetirá por toda a vida. Surgem nas passarelas meninas de 12 ou 13 anos que se submetem a todos os tipos de tortura para se manterem eternamente jovens e magras, muito magras. E, para isso, vale tudo, até mesmo o sacrifício da saúde. Como em todos os mercados, o processo natural de envelhecimento, não tem vez. O que vale é a juventude, o novo, a magreza, a exploração sexual. Certa vez ouvi de uma advogada que precisava ser “gostosa” para conseguir crescer no mercado. Ela se submeteu a uma cirurgia de redução estomacal e esteve à beira da morte quando se deu conta do que havia por trás da busca desenfreada pelo corpo “certo”. Sabe-se que o número de suicídios entre as mulheres que implantaram silicones, foram submetidas a cirurgias plásticas e utilizaram botox vem crescendo de forma assustadora, segundo pesquisas do Grupo de Doenças Afetivas da Universidade de São Paulo (GRUDA).

O mercado agregado vem com uma linha completa construída ideologicamente por comerciais, filmes, desenhos etc com enfoque na mulher-objeto (e do conseqüente consumo para se “chegar lá”). É inaceitável que as mulheres continuem aprisionados por essa espécie de canibalismo mercadológico. Outros mercados, que não o da moda e do entretenimento, acabam por absorver e reproduzir esses estereótipos de consumo, reduzindo as possibilidades de atuação profissional das mulheres e colocando-as em nichos específicos.Os meios de comunicação, que tanto destacam e lamentam as mortes por anorexia ou bulimia são coadjuvantes nesse processo, na medida em que seus espaços estão fechados para o que está fora de seus padrões. Não basta mais lamentar. É chegado o momento de colocar um basta à hipocrisia que rodeia padrões excludentes, antes que nos habituemos à violência a que são expostas as nossas crianças, adolescentes e mulheres adultas.

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