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Cássia Janeiro
Artigo: Os miseráveis
Publicado em:
16 de dezembro de 2007
às 10h55
Os miseráveis

O dia de finados passou e minha mente ficou pedindo uma reflexão. Afinal, é o dia em que celebramos, por assim dizer, aqueles que foram vivos um dia e que nos deixaram lembranças e saudades. Mas existem também aquelas pessoas não queridas por quase ninguém, os assassinos e os miseráveis que, de modo geral, deixam rastros de tristeza e de destruição, que não fazem falta e que queremos esquecer. É sobre eles que gostaria de falar neste artigo.

No dia de finados, coincidência ou sincronia, assisti a dois filmes que provocaram em mim reações diferentes e levaram a minha mente a um tema nunca muito bem resolvido em épocas como a nossa: a pena de morte. O primeiro foi assistido pela segunda vez. Trata-se de Os últimos passos de um homem , um drama dirigido por Tim Robbins, com Sean Penn e Susan Saradon nos papéis principais (1.995). Muito resumidamente, o filme trata de uma freira católica (Susan Sarandon), que passa a ser a guia espiritual de um condenado à morte e a lutar pela sua redenção (Sean Penn). A acusação que recai sobre ele é ter assassinado um casal de adolescentes, depois de ter estuprado, com um comparsa, a menina. A despeito da violência do caso, o filme fala de amor, um amor que pode trazer a redenção. Seu foco principal é o discurso final do protagonista (Sean Penn), que diz que é errado matar, seja o assassinato cometido por gente como ele ou pelo Estado.

O segundo filme foi Monster – Desejo Assassino , dirigido por Patty Jenkins , com Charlize Theron e Christina Ricci (2.003). O filme deu a Charlize Theron o Oscar de melhor atriz por seu impressionante trabalho. A obra trata basicamente da busca desesperada por amor e das conseqüências drásticas a que a protagonista é levada. É uma história real e não vale a pena conta-la; o filme deve ser assistido. A moral da história pretende discutir questões como legalidade e justiça. Não percebi, embora não seja versada na crítica cinematográfica, nenhuma tentativa de desculpar os terríveis assassinatos cometidos. Contudo, o filme acompanha a personagem e nos mostra que ali existe uma pessoa, alguém que teve seu corpo violado desde a infância e que tentou, de todas as maneiras possíveis, ser feliz e fazer parte da sociedade. Isso, repito, não a desculpa pelos atos cometidos, mas coloca em cima da mesa a discussão (a velha discussão) sobre a responsabilidade pessoal e a da sociedade na formação de um assassino. Também aborda a nossa decadência moral, a insanidade moderna e suas nuances de um ponto de vista bastante sensível. Diferente de Os últimos passos... no que se refere ao enfoque, a conclusão parece a mesma.

Isso tudo me remeteu a um outro filme, esse bem radical na sua experiência contra a pena de morte: A Vida de David Gale , de Alan Parker, com Kevin Spacey e Kate Winslet (2.003) . Particularmente não gostei do filme, especialmente por tratar-se de um diretor e de um elenco que prometiam muito mais. A decepção, contudo, não me impediu de perceber nesse tripé de obras tão diferentes um ponto em comum, qual seja uma sólida posição contra a pena de morte.

Esse é um tema controverso, que levanta inúmeras polêmicas, sobretudo em dias de violência crescente, descontrole do Estado, corrupção, impunidade e incompetência das autoridades. Ainda que o assunto apareça no Brasil intermitentemente, especialmente quando há casos de crimes hediondos, é preciso separar o joio do trigo e tentar analisa-lo sob uma luz mais sensata, a uma distância razoável do ódio.

Uma sede de vingança ronda toda a sociedade, as assim chamadas pessoas de bem. As reações são justificáveis; quem não se sentiu enojado, indignado e impotente diante da morte dos dois adolescentes, Felipe Silva Caffé (19), e Liana Friedenbach (16), em novembro do ano passado? Há inúmeros casos que chocaram e continuam chocando o País e outros que não nos deixam mais perplexos, especialmente quando se trata de gente miserável, que vira estatística, mas que não toca nossos sentidos. Este foi o que mais recentemente mobilizou a sociedade e provocou uma ira imediata, até mesmo pela extrema brutalidade. Havia um profundo sentimento de vingança no ar; tínhamos vontade de matar os acusados. Nem o presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, Henry Sobel, pôde conter a sua indignação; num ato emocional, expressou com franqueza o que a maioria sentia diante do crime monstruoso e, num lampejo impensado, como ele mesmo relatou posteriormente, afirmou ser favorável à pena de morte em casos assim. Logo depois, contudo, teve a grandeza de refletir e de voltar em sua posição. Foi coerente com uma história que trilhou em favor dos direitos humanos, pontilhada de atos de heroísmo, como no caso do enterro de Vladimir Herzog, assassinado no DOI-Codi, em São Paulo , em 1.975.

Falar sobre a pena de morte não é fácil. O tema raramente é tratado de forma racional, o que não significa ser tratado friamente, e as emoções explodem. Quem é contra ouve, de chofre, argumentos como: “queria ver se fosse com um filho seu”, “nunca aconteceu com você”, “vocês querem direitos humanos para os assassinos, mas não pensam nas famílias” e assim por diante. Esses argumentos são maniqueístas e não têm qualquer fundamento. Quem luta por direitos humanos de verdade não quer impunidade, não quer que os assassinos comam caviar enquanto as famílias amargam suas tragédias; muito menos pregamos o conformismo, a falta de indignação e nem devemos fixar a culpa apenas na sociedade, embora seja fato que o lugar social do assassino seja responsável, em grande parte, pela sua estruturação. O discurso não procede.

Sou contra a pena de morte. Mesmo quando sinto ímpetos de vingança, mesmo quando me deparo com crimes hediondos. É certo, contudo, que, se eu tivesse a minha vida ou a vida de algum membro da minha família ameaçada e não houvesse outra saída, na primeira oportunidade, eu mataria. Entretanto, isso é o que chamam de legítima defesa. Matar por vingança não me cabe e, se não quero pessoalmente sujar minhas mãos, não posso delegar ao Estado o serviço sujo que eu mesma me recusaria a fazer. Umberto Eco, em seu famoso Diálogo sobre a pena capital , discute com Renzo Tramaglino a responsabilidade pessoal de cada um no processo da pena de morte. Num dado momento, Eco argumenta:

“... Agora, diga-me, ó Renzo, uma vez que você tem essa visão severa e super-humana da lei, e admite que a morte aplicada pelo Estado não é assassínio, mas distribuição eqüitativa, se o Estado o escolhesse, por sorteio ou rodízio, para aplicar a morte em quem matou, aceitaria? Responde Renzo: “Não posso dizer que não. E minha alma estaria tranqüila. Quem quer que sustente a pena capital deve declarar-se pronto a aplicá-la, se pedido pela comunidade...”.

 

Eco pondera: “eu também sou pai e, freqüentemente, pergunto a mim mesmo o que faria se, morto meu filho por raptores desconhecidos, viesse a por as mãos no culpado antes da polícia... Após esse banho de horror e de sangue, teria a impressão de que a minha dor, se não aplacada, estaria saciada em sua ferocidade. E me abandonaria ao meu destino, sabendo que nunca mais minha mente poderia readquirir a paz e equilíbrio de antes...”.

Este me parece um motivo bastante razoável para ser contra a pena capital. Se condeno o ato de matar, como me sentiria matando alguém ou delegando a outra pessoa o direito de executá-la? Essa é uma atitude primária, que nos faz descer um degrau; além disso, o ato não traria o ente querido de volta. O peso da morte da pessoa agregado a uma degradação espiritual levaria a sociedade à barbárie em pouco tempo. Existem, porém, outras razões que depõem contra a pena de morte. Victor Hugo nos apresenta alguns argumentos bastante úteis à reflexão. “Pode-se considerar com certa indiferença a pena de morte, não aprová-la nem condená-la, enquanto não se tiver visto, com os próprios olhos, uma guilhotina; mas, vendo-se uma, o choque é violento e é preciso decidir-se ou a favor ou contra. (...) A guilhotina é a síntese de toda a lei; seu nome é vingança ; não é absolutamente neutra, e não permite que se continue neutro. Quem a vê se amedronta com o mais misterioso dos medos. Todas as questões sociais levantam pontos de interrogação ao redor desse cutelo. O patíbulo é visão. O patíbulo não é simplesmente armação de madeira, não é máquina. O patíbulo não é engenho inanimado feito de madeira, ferro e cordas. Parece um ser que possui não sei que iniciativa sombria; dir-se-ia que essa armação vê, que essa máquina entende, que esse mecanismo compreende, que essa madeira, esses ferros, essas cordas têm vontade própria. No pesadelo amedrontador em que lança a alma, o cadafalso se mostra terrível, confundindo-se com sua tarefa. O patíbulo é cúmplice do carrasco; devora, alimenta-se de carne, sacia-se com sangue. É uma espécie de monstro fabricado pelo juiz e pelo carpinteiro, um espectro que parece viver uma vida feita de todas as mortes que ocasiona”.

Hugo vai além tentando demover as argumentações favoráveis à pena. “Os que julgam e condenam dizem a pena de morte necessária. Em primeiro lugar, porque é importante eliminar da comunidade social um membro que já a prejudicou e que poderia prejudicá-la outra vez. Se se tratasse apenas disso, a prisão perpétua seria suficiente. Para que a morte? Retrucam que se pode escapar de uma prisão? Melhorem suas rondas! Se não têm confiança na solidez das grades, como ousam manter feras em cativeiro?

Nada de carrasco onde basta o carcereiro.

Mas, objetam eles, - é preciso que a sociedade se vingue, que a sociedade puna. – Nem uma coisa nem outra. A vingança cabe ao indivíduo, a punição a Deus.

A sociedade está entre os dois. O castigo está acima dela, a vingança abaixo. Nada tão grande nem tão pequeno lhe convém. Não deve ‘punir para vingar-se'; deve corrigir para melhorar . (...) Resta a terceira e última razão: a teoria do exemplo. – Tem que haver exemplos! Tem que apavorar pelo espetáculo da sorte reservada aos criminosos aqueles que poderiam cair na tentação de imitá-los! – Esta é quase textualmente a eterna frase cujas variações mais ou menos sonoras ouvimos em todos os requisitórios dos quinhentos tribunais da França. Pois bem! Primeiro, negamos que haja exemplo. Negamos que o espetáculo dos suplícios produza o efeito esperado. Longe de edificar o povo, desmoraliza-o e arruína nele qualquer sensibilidade, portanto qualquer virtude.”

Teremos, portanto, corações duros, crueldade e barbárie. Outras controvérsias cercam o assunto. Para que se possa matar, é preciso desqualificar o outro como ser humano. Em seu livro sobre Hitler, um dos argumentos que Ron Rosenbaum coleta das inúmeras testemunhas e estudiosos do Holocausto, diz respeito a essa desqualificação . Os judeus, os homossexuais, os ciganos e outros que não se encaixavam no modelo de raça pura, eram tratados como cidadãos de segunda classe. A propaganda nazista chegou a fazer uma clara analogia entre judeus e ratos: ambos precisavam ser eliminados. Nos campos de concentração, o indivíduo perdia sua condição de sujeito. Maltrapilhos, malcheirosos, esqueléticos e com aparência repugnante, os nazistas conseguiram gerar a imagem desejada: aqueles não eram mais seres humanos e, portanto, não precisavam ser tratados como tal. O Holocausto aconteceu porque havia uma predisposição e uma imagem construída. No belo filme Arquitetura da Destruição , de Peter Cohen (1.994), o espetáculo do nazismo é construído sob bases estéticas, étnicas e biológicas. É certo que Hitler foi possível porque o preconceito, o anti-semitismo estava ali, em estado embrionário.

A tentativa de gerar uma raça pura não é privilégio dos nazistas. Se pararmos num semáforo qualquer, ali estão as nossas crianças, maltrapilhas, sem educação, privadas do acesso à cultura e jazem à margem da humanidade. Essas crianças crescerão – tantas já cresceram! - e, de alguma forma, também nós estamos tratando de nos desvencilhar do problema. Entretanto, o problema é um ser humano e, para que possamos efetivar um ato cruel contra um ser humano, precisamos removê-lo desta categoria. Ele passa a ser uma coisa incômoda, um monstro. Não se pensa nele como alguém que tem mãe, pai, irmãos, amigos, filhos, marido ou esposa; pensa-se neste ser como um câncer a ser eliminado. Mas, assassinando essas pessoas, estão matando parte de sua família, parte de outros seres humanos. Dirão, os favoráveis à pena de morte, que também lhes foram tirados entes queridos, mas que selvageria será de uma sociedade onde prevalecerá o “olho por olho” e, mais, se acham monstruoso tirar a vida de alguém, se sentiram na pele ou presumiram a sensação de ter alguém amado arrancado do seu convívio, como desejar o mesmo a uma família igualmente inocente?

Vou contar uma história. Desde a mais tenra adolescência, conheci uma criança mais ou menos da minha idade. Todos o conheciam por Urso. Desde os três anos, ajudava a família a sustentar-se. Foi ganhando dinheiro e não havia tempo para ir à escola. O trabalho, o único que conhecia, tomava-lhe todo o tempo. Acho que sabia ler e escrever muito pouco. Um dia ele viu que deixei a chave da minha motocicleta no contato. Tocou a campainha e avisou a meu pai que, agradecido, tratou de recolhê-la antes que algum “marginal” o fizesse. Quando foi embora, meu pai contou-nos a história. No dia seguinte, encontrei o Urso na rua. “Cuidado com a chave da moto, menina”. Sorri e agradeci. Cheguei em casa e contei a meu pai que aquele moço que ele tinha achado tão gentil era o chefe do tráfico de drogas do bairro. Meu pai estremeceu. Como podia ser? Naquela época, a Rota aterrorizava as ruas de São Paulo. No meu bairro, tínhamos mais medo dos policiais do que dos traficantes. Eles nos protegiam, a troco de silêncio, é claro. Havia fila às sextas-feiras para comprar drogas com o Urso. Filas de universitários bem nascidos.

Um dia o Urso apareceu morto. Ninguém sabe o que houve. Conta-se, à boca pequena, que havia dado dinheiro a menos à polícia. Urso tinha mãe, uma filha, mulher e amigos. Seria hipócrita dizer que eu não gostava dele. Podia ser contra os seus atos, mas sempre me perguntei se ele teve outra saída. Como no filme Monster , parece que não. Vi o Urso passando de gravata diversas vezes tentando arrumar um emprego; presenciamos a sua angústia de querer largar aquilo e ter uma vida decente, sobretudo depois que a sua filha nasceu. Mas as portas estavam fechadas para ele. Urso morreu aos vinte e poucos anos. Fiquei pensando o que seria dele se tivesse uma boa escola, se seu pai não tivesse morrido tão cedo, se, desde garoto, não tivesse sido um pombo correio das drogas. E, mais tarde, se as coisas poderiam ser diferentes se ele tivesse uma chance.

Não faço apologia de traficantes. É comum distorcerem esse argumento. Por isso precipito-me em dizer que sou contra o tráfico de drogas. Entretanto, é preciso ter uma distância segura do problema. Se o virmos muito de perto, perdemos a perspectiva geral e se, ao contrário, o virmos de muito longe, esquecemos que somos todos humanos, que fazemos parte, queiramos ou não, da família humana. Por isso, é preciso fazer, como afirma Dalai Lama, uma distinção entre as pessoas e seus atos.

Há tempos uma crise ética assola o planeta em diferentes níveis. Cada um precisa assumir a sua parcela de responsabilidade. Das piadinhas “ingênuas” sobre homossexuais, mulheres, negros e pessoas de outras nacionalidades, que tratam de diversão às custas da inferiorização e desqualificação do outro (dificilmente contam-se piadas sobre homens brancos e bem-sucedidos, uma vez que o mundo gira em torno deles) aos vulgares e violentíssimos programas de TV, existe uma massa crítica que explode desordenadamente. É bobagem dizer que esses pequenos atos não têm impacto na sociedade. Se televisão fosse inofensiva, se não pudesse envolver e cooptar, por que milhões seriam gastos em propaganda? Se nossos atos não refletem preconceito, por que nos divertimos às custas de piadinhas ofensivas? E não, não pretendo viver numa sociedade sem humor, porque ele é fundamental. Quem seria capaz de dizer que Dalai Lama, Leonardo Boff, Jesus ou Ghandi se caracterizam pelo mau-humor? É possível ser inteligente sem ofender, sem cair na sarjeta do senso comum. Mas cada um deve assumir a sua responsabilidade. A televisão, sobretudo, é uma concessão pública. Ela não tem o papel de substituir a escola, mas não pode, e nenhum argumento há de me convencer do contrário, ajudar a sociedade a piorar, a cultivar ódio, vingança, sexo barato, piadas de terceira categoria e falsa informação. Ela existe não para si, não para enriquecer seus proprietários, mas para servir à população. Fomentar sentimentos negativos, desclassificar a solidariedade, como fazem as inomináveis pegadinhas, transformar o telespectador em espião de baixarias diárias e distribuir dinheiro para um auditório carente de recursos, que se humilha por uma nota de dez ou cinqüenta reais, é ajudar a tornar a sociedade pior. É claro que sempre existe a falsa teoria de que basta apertar o botão do controle remoto. Entretanto, liberdade não está na quantidade de coisas estúpidas que podemos escolher, mas na sua qualidade. Das telenovelas aos “jornalistas” que condenam, aos berros, supostos ou verdadeiros assassinos, das nossas piadinhas cotidianas ao espancamento de mulheres, negros, crianças e homossexuais, todos são responsáveis. As atitudes fomentadoras de ódio e vingança não discutem nada em profundidade, ajudam a espalhar preconceitos e a transformar nossa sociedade num lugar muito ruim para se viver.

O desenvolvimento interior é relegado ao décimo plano. Vale tudo para adquirir coisas e posições, mas muito pouco é feito pela nossa alma. Nunca ouvi de ninguém uma resposta do tipo “quero ser uma pessoa digna” à famosa pergunta: “o que você vai ser quando crescer?” Pessoa digna? Ninguém responde isso. Não há interesse nesse produto. Isso tem um custo individual alto, mas é catastrófico para a humanidade.

São muitas as razões da degeneração social. Remover as causas é um dever de todos nós. Podemos, sim, mudar o mundo. Não estamos aqui a passeio, ainda que o planeta seja suficientemente belo para isso. Desenvolver a compaixão num ambiente hostil e que valoriza ao extremo a mesquinharia e o ego é muito difícil. Mas não é impossível. Já escrevi um artigo falando do filme A última das guerras . Trata-se de um exercício real de compaixão e de uso do conhecimento contra a violência. Um outro exemplo, também real, foi dado pelo Dr. Victor Frankl, um sobrevivente dos campos de concentração que perdeu praticamente toda a sua família na Segunda Guerra; restou-lhe apenas uma irmã. Ele tinha razões de sobra para cultivar o ódio, vivendo num ambiente degradante, sem saber se estaria vivo no dia seguinte. Ao contrário do que era de se esperar, ele cultivou o amor, ajudou os outros presos, conseguiu cultivar uma visão de futuro e tornou-se uma referência não apenas no campo de concentração, mas para toda a humanidade. Ele afirma que “a salvação de homem está com o amor e no amor. Eu entendi como um homem que não tem nada neste mundo ainda pode ser feliz, nem que seja apenas um momento breve, na contemplação do ser amado. (…). O propósito, mesmo naquela vida que é quase estéril de criação e de prazer, admite a possibilidade de um comportamento moral elevado: isto é, na sua atitude, para a sua existência, mesmo que restrito por forças externas.”

É muito fácil admirar um homem como Victor Frankl, como quase todos admiram Ghandi, Cristo, Sai Baba ou Dalai Lama. Suas idéias basicamente são sobre atitudes compassivas e não-violentas. Isso requer responsabilidade e compaixão, mas é difícil seguir seus princípios. Pode-se argumentar que Jesus chicoteou os vendilhões do templo, mas até onde eu saiba, não aplicou ou defendeu a pena de morte a ninguém.

Uma sociedade que se alimenta do ódio colhe seus frutos, torna-se patológica. Como queremos construir uma sociedade mentalmente sã se não somos capazes de começar por nós mesmos? O que estamos fazendo para que esta utopia se realize? Erich Fromm afirma que “reduzimos a média das horas de trabalho à metade do seu total de há cem anos. Temos hoje mais tempo livre do que os nossos ancestrais poderiam sequer sonhar. Mas que aconteceu? Não sabemos como usar esse tempo livre; tentamos matar o tempo que economizamos ao trabalho e ficamos contentes quando termina mais um dia.”

Somos hoje mais frios e essa frieza nos fez menos humanos. Corremos o risco de nos tornarmos personagens kafkianos, de nos maravilharmos com os mecanismos de punição e de morte, a exemplo do que ocorre em A Colônia Penal , esquecendo a pessoa que está sendo condenada.

Quanto ao sistema carcerário, devemos investigar com honestidade quais são as finalidades do encarceramento. A primeira, é evidente, é tirar o indivíduo de circulação para que não cometa novos crimes. Mas existem outras finalidades. A punição é outra, mas a terceira é oferecer ao sujeito uma chance de voltar ao convívio em sociedade. Não podemos mais tolerar “(...) no teatro dos castigos, estabelecer uma relação imediatamente inteligível aos sentidos e que possa dar lugar a um cálculo simples. Uma espécie de estética razoável da pena”. Se nosso sistema penitenciário não funciona, façam-no funcionar! Não se fecha um hospital porque os médicos não comparecem, porque os remédios são escassos e porque a infra-estrutura precisa de reformas. Somos eleitores, temos representantes, conquistamos uma democracia ainda recente, mesmo que frágil, mas seria muito útil começar a exercê-la.

A impunidade e a punição degenerativa são parte da mesma moeda. Ambas tornam o sistema inerte, relapso, poroso à corrupção e à degradação. As prisões não são feitas para isso. Também não são hotéis de cinco estrelas. Os presos custam caro à sociedade. O trabalho dentro das penitenciárias evita o ócio, cria um ambiente produtivo, é economicamente viável e parece mais justo que a fábrica de criminosos que lá se cria.

Existem maneiras civilizadas de lidar com aqueles que perderam, por quaisquer razões, a civilidade. A pena de morte certamente não é uma delas.

Finalmente, é sabido que a punição por pena de morte recai, na maioria dos casos, sobre a população excluída econômica, racial, social e culturalmente. A Anistia Internacional afirma que os EUA vem executando cidadãos negros condenados à morte em conseqüência de um sistema judicial cheio de preconceitos raciais. “Há anos a Anistia Internacional vem chamando a atenção do governo estadunidense, de forma reiterada, para a questão do uso racista da pena de morte. Contudo, as autoridades desconsideram as denúncias ou entendem que o problema simplesmente não existe. A organização continua insistindo para que o direito à igualdade, garantido na Constituição do país, seja uma realidade para todos os seus cidadãos.

No relatório são citadas muitas das formas pelas quais os preconceitos raciais podem influir em um julgamento: promotores que pedem a pena capital mais freqüentemente para acusados pertencentes à raça negra (em alguns casos apenas para estes), jurados que utilizam sem reservas termos racistas quando deliberam se o réu deve viver ou morrer; pessoas impedidas de fazerem parte do júri devido a sua cor, magistrados que fazem declarações racistas etc. As estatísticas demonstram, de maneira esmagadora, que o sistema judicial norte-americano dá mais valor à vida dos brancos do que a dos negros. Dos 500 presos executados entre 1.977 e fins de 1.998, mais de 81% haviam sido condenados pelo assassinato de uma pessoa da raça branca, apesar de em todo o país existir praticamente o mesmo número de vítimas negras e brancas de homicídio. Também está comprovado que, nos julgamentos de negros acusados de terem matado brancos, a possibilidade de que o réu seja condenado à morte é quase 11 vezes maior do que nos casos de assassinatos de negros por brancos. (…) Embora o relatório concentre-se principalmente nos preconceitos contra a comunidade negra, ele mostra claramente que a discriminação existente no sistema judicial norte-americano afeta igualmente os hispânicos, os indígenas, os cidadãos de origem asiática ou árabe e os membros de outros grupos étnicos.”

Em alguns casos, a margem de escolha ou livre-arbítrio, como queiram, é muito limitada. Muitos são condenados, como Urso, desde a infância e não têm muito discernimento sobre seus crimes. A Colônia Penal oferece uma bela metáfora da situação:

“- Ele conhece a sentença?

- Não – disse o oficial, e logo quis continuar com suas explicações.

Mas o explorador o interrompeu:

- Ele não conhece a própria sentença?

- Não – repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada de sua pergunta; depois disse:

- Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne.

O explorador já estava querendo ficar quieto quando sentiu que o condenado lhe dirigia o olhar; parecia indagar se ele podia aprovar o procedimento descrito. Por isso o explorador, que já tinha se recostado, inclinou-se de novo para frente e ainda perguntou:

- Mas ele certamente sabe que foi condenado, não?

- Também não – disse o oficial e sorriu para o explorador, como se ainda esperasse dele algumas manifestações insólitas.”

 

É preciso que se pense numa nova forma de ver as pessoas e a sociedade, uma revolução do espírito, como propões o Dalai Lama; recuperar pessoas e recuperar o próprio sentido de uma sociedade ética, que promova valores e não os destrua. Recuso-me a crer na tese da irrecuperabilidade. Os resultados de pessoas e ONGs que apostaram na transformação, são evidentes. Não poderia exercer conscientemente a minha profissão se não acreditasse nisso. Todo ser humano guarda um potencial dentro de si; todos podem vir a se tornarem verdadeiramente humanos. Nosso trabalho, no limite de nossas possibilidades ecológicas, psicológicas, educativas, deve ser norteado por uma ascensão espiritual e transformar-se numa educação para sentir.

Falar de pena de morte não é fácil, pois é impossível deixar de ser empática com as famílias que perderam seus filhos, seus pais, seus maridos e suas esposas. Para ser sincera, é difícil tomar uma atitude cujo fruto seja uma reflexão meramente racional. Tenho filhos, mas acredito que, como diz Victor Hugo, o sangue de um condenado à morte pelo Estado “respinga na cabeça de todos os membros da comunidade social”. Por ter uma família, vivo acuada entre a consciência e um sentimento legítimo e sincero que brota em mim quando vejo crimes brutais. Entretanto, é preciso resistir, para que não nos tornemos monstros sob o pretexto de combatê-los.

Devemos decidir se queremos ascender ou não na esfera espiritual. É certo que o mundo, como está, nos instiga à revolta e ao ódio. Porém, uma revolução se faz necessária. Durante muito tempo acreditei que essa resposta estivesse apenas no marxismo. Entretanto, encontrei muitos marxistas que fariam Marx corar e corroborariam a sua famosa frase: “Não sou marxista”. Hoje, porém, continuo vendo aspectos extremamente positivos nas análises que Marx fez, algumas francamente proféticas. Estou certa de que, versátil e sagaz como era, ele mesmo teria reformulado algumas de suas idéias, que, no Brasil, foram brilhantemente tratadas por figuras como Florestan Fernandes, Renato Janine Ribeiro, Antonio Candido, Paulo Freire, Leandro Konder, Marilena Chauí entre muitos outros estudiosos sérios. Contudo, é impossível para mim deixar de lado a idéia de que a revolução se inicia dentro de cada um de nós, como propõe Dalai Lama. Aparentemente opostos, os conceitos são, a meu ver, complementares. Leonardo Boff conseguiu uma abertura para integrar a responsabilidade individual e a fraternidade, sem abandonar sua base marxista. Estamos todos buscando fazer parte e construir uma humanidade melhor, independente dos rótulos que possamos carregar.

A pena de morte e o seu desejo estão onde Deus foi expulso dos corações. Os crimes hediondos existem e merecem ser punidos com rigor. Mas, a meu ver, a pena de morte é o pior deles, porque faz de nós Pilatos, que lava as suas mãos e deixa o trabalho sujo para que o carrasco execute.

Cássia Janeiro

Educadora, escritora e poeta.

cassiajaneiro@uol.com.br

 

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FROMM, ERICH. Psicanálise da sociedade contemporânea 10ª edição. Rio de Janeiro; Guanabara

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KAFKA, FRANZ. Na colônia penal. São Paulo, Cia. Das Letras, 1998.

 

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