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Cássia Janeiro
Artigo: A história de Solange
Publicado em:
31 de março de 2008
às 09h22
A história de Solange

Um matadouro perto do céu

"Não há nada mais terrível do que uma ignorância ativa". Goethe

Estudei com Solange desde o primário. Seu brilho contagiava. Eu me aproximei dela numa tarde chuvosa em que ela tinha guarda-chuva e resolvemos cabular aula. Fomos à sua casa e, pela primeira vez, experimentei melado de cana.

A mãe trabalhava fora, uma exceção na época, e ela ficava com parentes, especialmente com um tio, que adorava. Também ficava com o pai à noite, que lhe contava as mais belas histórias. Por mais que amasse a mãe, o pai era seu mundo.

Solange era tímida, mas feliz. Talvez eu me identificasse com ela por isso. Havia em nós também uma tristeza existencial, que não sabíamos o que era.

Inexplicavelmente, Solange começou a mudar. Ficou anêmica e arredia. Não ria mais e tinha medo de tudo. Chegou a ficar agressiva. “O que aconteceu?” Eu perguntava, mas ela não dizia.

Um dia começou a chorar e me fez prometer que não contaria a ninguém. Fomos à casa dela comer melado e ela tentou dizer algo e chorou. Mais calma, começou a contar. Daquele dia em diante, fomos duas prisioneiras de um silêncio mortal.

Tudo começou na Copa do Mundo, 1970. Ela ganhou do tio um álbum de figurinhas dos jogadores da copa. Gostava dessas coisas que chamavam de “coisas de menino”, como aquele álbum mágico, em que os jogadores ganhavam vida. Solange pegava sua cola tenaz e ia à banca de jornal com os trocados que o seu tio lhe dava e comprava as figurinhas. Depois trocava as repetidas comigo, que também gostava dessas coisas de menino.

Aos seis anos tinha cabelos compridos e macios, presos em um imenso rabo-de-cavalo, em tranças ou apenas soltos, o que a fazia parecer maior do que realmente era.

Andava pela rua e via coisas estranhas pintadas na parede. Lia com dificuldade “A-B-A-I-X-O-A-D-I-T-A-D-U-R-A”. O que era ditadura? Ninguém sabia explicar, mudavam de assunto e ela não insistia. Era feio insistir, diziam. Mas, quando queria alguma coisa, insistia assim mesmo, até conseguir. Obstinada. Chata. Persistente. Assim era Solange. A tal ditadura ela não entendia e não se interessava. Esqueceu o assunto.

Ia para o colégio de freiras, um colégio de gente rica em que ela, a pobre, era objeto de chacota. Caçoavam do seu conga e do seu jeito. Foi assim que aprendeu a mentir, a contar que o pai era um fazendeiro rico. Achava que todos acreditavam nela até que um dia o lanche de uma das meninas sumiu. “Foi ela”, alguém acusou. “Eu vi”, afirmava outra. Bateram em sua cara e chutaram o seu joelho. A freira chegou para apartar. O nariz sangrava sem parar. “O que foi?”, pergunta a freira. História contada, ela olha para Solange, o sangue do nariz pingando, as lágrimas se misturando a ele sob o queixo. “Não fui eu”, falou baixinho. “Você passa fome, sua família é pobre, o seu pai não é fazendeiro e a sua mãe se veste mal”, alguém disse com uma raiva inexplicável. As meninas riram e ela depositou na madre a esperança de salvação, que não veio. “Por que você fez isso? Não sabe que é pecado roubar? Que você pode ir até para o Inferno?” Alguém repetiu algo sobre sua mãe e ela ficou quieta, a humilhação travando a garganta. Era pobre e todos sabiam. Pobre e ladra, sem nunca ter visto o tal sanduíche. Sua lancheira pendurada a envergonhava, cor-de-rosa era a lancheira em que levava leite com Toddy e açúcar. Ela não gostava, mas não roubava lanche de ninguém. Passou a tarde com papel higiênico apertando o nariz, em pé, de costas para a classe, olhando a parede branca e ouvindo risos atrás de si. Na hora da saída alguém a chamou de lado e repetiu: “Sua mãe é pobre.” Ela correu atrás da menina e muitas a esperavam num beco. Pela primeira vez perdeu o controle, o corpo frágil tremendo, e partiu para bater em quem quer que fosse. Apanhava quando sua mãe chegou e ela viu que alguém podia protegê-la. Sua mãe, no entanto, puxou-a e falou palavras incompreensíveis. Em voz alta ela a repreendia por estar brigando. Solange teve raiva de sua mãe e quis cair morta ali, naquele lugar. Foi para casa. Seu pai não estava, ele trabalhava muito e a via pouco. Fechou a porta do quarto e chorou o resto da noite, até adormecer.

Sua professora, no dia seguinte, a professora que ela amava, chamou-a na frente de toda classe: “Você parece um bicho”. Ela tentou explicar, mas a professora não ouviu. “Além de ladrona você parece um bicho”. Ela não chorou. Manteve a cabeça baixa e não chorou. O sangue no nariz apareceu e ela teve uma vergonha de dar dó. Alguém a pegou pelo braço e ela lavou o nariz no banheiro. Depois pegou o papel higiênico e apertou. Voltou para a classe, para aquele matadouro, um matadouro perto do céu.

Alguma coisa fora do lugar

“Minha sombra sou eu
Eu não sou ninguém.
Eu estou morta ao chão,
Enquanto minha sombra se move para o além”.
Cássia Janeiro

O tio levava figurinhas e depois lápis de cor e uns pequenos livros para colorir. Ela pulava em seu colo. Aqueles momentos a faziam feliz, estavam fora do alcance das meninas ricas da escola e de todo aquele mundo para o qual ela não se achava talhada. Às vezes olhava de sua janela para o céu. Tinha certeza de que seus pais eram de outro planeta e a tinham esquecido, ela estava certa. Olhava para o céu porque a pegariam de volta. Isso nunca aconteceu.

Ia para a casa de sua avó e sua tia lhe contava histórias de fadas, de labirintos. Solange adorava aquilo e imaginava os lugares, os cheiros, as cores e os sons.

Um dia ela coloria seu livro, as figuras delicadamente contornadas com lápis de cor. Seu tio chegou e ela correu para abraçá-lo. Ele a colocou em seu colo e começou a mostrar-lhe as figuras seguintes, perguntando-lhe gentilmente com qual cor ela preencheria. Ela separava os lápis e os mostrava ao tio. Sentiu um aperto mais forte e riu, porque gostava quando seus tios, primos e tias a abraçavam. Ele apertou mais e mais forte. Não soube porque, mas aquilo não estava mais bem. Ela se levantou e foi brincar no quintal. Passou o dia com uma sensação estranha, como se algo que ela não conhecia estivesse fora de lugar. Não sabia porque se sentiu uma sombra, uma sombra que queria desaparecer, ir embora para sempre.

Formigas e ditadura

"Nada perturba tanto a vida humana
como a ignorância do bem e do mal".
Cícero

Solange adorava conversar com formigas. Aprendeu que elas podiam ser muito dissimuladas. Quando as apertava, elas se fingiam de mortas; Solange assoprava e elas corriam. Além de mim, ninguém mais ia à sua casa. Gostava de dormir nas pernas de sua mãe e de brincar com o pai, colocando-se sobre os seus pés quando ele caminhava. Sua mãe era linda, uma beleza que chamava atenção por onde passava. O pai era belo e ciumento. Disso ela lembrava: das brigas intermináveis por ciúmes. Ficava ouvindo e me contava. À noite, tinha alucinações e sonhos estranhos. Via formigas subindo em sua cama e depois em seu corpo. Às vezes não dormia, outras acordava suando e chorando. Achava que as formigas se vingavam dela durante o sono.

Quando ia para a escola, aquelas palavras pintadas na parede ficavam mais comuns e ela lia mais rápido: “Abaixo à ditadura”. Um dia perguntou ao pai o que era ditadura. Ele não desconversou, mas disse com olhar firme, aquele olhar que dizia: “Não se discute mais isso”. Ele falou que nunca, nunca mais, Solange devia dizer essa palavra. Não perguntou se ela entendeu, porque deu o assunto por entendido e encerrado. Ela olhou para baixo, quase chorou e obedeceu.  

Um dia inesquecível

"Ri das cicatrizes quem jamais foi ferido".
William Shakespeare

Na escola todo mundo falava da Copa do Mundo. Agora tinha dois amigos: Valtinho e eu. Valtinho era canhoto e sofria inúmeras humilhações na hora do hino nacional. A freira nos mandava colocar a mão com a qual a gente escrevia no lado do coração e Valtinho punha a mão esquerda. A madre mandava Valtinho para frente e, sozinho, tinha que cantar o hino. Ele tropeçava nas palavras, era uma criança. Todos riam, menos Solange e eu, que quase chorávamos quando víamos as lágrimas fecharem a garganta do Valtinho. Num ato despótico, a freira amarrou a mão esquerda para trás e ele teve que aprender a escrever com a direita. Aqueles garranchos também eram motivo para que a professora e a madre superiora o humilhassem ainda mais. A escola era um porão sem saída e nós sobrevivemos porque nos unimos.

Ela preenchia seu álbum. As ruas estavam tomadas pelo verde e amarelo. O álbum estava quase completo. Olhava para o Pelé e o achava o homem mais lindo do mundo depois do seu pai. Seu tio chegou com um pacotinho de figurinhas. Olhou para os lados e fechou a porta. “Vou ensinar você a colar direitinho, sem se sujar”. Ele a colocou no colo e a apertou. Novamente veio aquele mal-estar. Ela disse que ia brincar, mas ele disse que era falta de educação, que, afinal, tinha comprado as figurinhas. Ele então deu as figurinhas e a cola. Colocou sua mão sobre a coxa da menina e ela não sabia porque se sentia tão mal. Riu nervosamente e pegou a mão do tio para tirá-la da coxa esquerda. Ele segurou com força a mão da menina e a colocou sobre o álbum. Pôs sua mão entre as pernas e, num movimento rápido, dentro da calcinha. Ela sentiu dor e ele tampou sua boca. Ele tinha unhas compridas e sujas e seus dedos a arranhavam. Balançou o pequeno corpo para frente e para trás em seu colo, sua mão dentro da calcinha, ela com a boca tampada, querendo urrar de dor. Os movimentos ficaram mais fortes e o tio suava. Ela teve ânsia, o cheiro dele era melado, de perfume barato e adocicado, a barba por fazer roçando seu rosto. Ele deu um gemido baixo e parou. “Se você contar isso para alguém, eu mato o seu pai”. Esse foi o dia em que o Brasil ganhou a copa, esse foi o dia em que Solange, sem saber, perdeu a inocência e enterrou a infância. Esse foi um dia inesquecível para todo mundo.

Terminou

"Tenho nojo do meu corpo, medo de sair na rua e de ficar em casa. Não estou bem em lugar nenhum”.
Depoimento de uma garota de 13 anos vítima de estupro

O tio começou a aparecer mais vezes. A casa da avó era cheia de gatos. Ele brincava com eles, aquelas unhas sujas, e depois entregava os lápis novos à sobrinha. Um dia colocou os dedos na pequena vagina, no outro, abriu sua calça e pediu que ela segurasse o seu membro. As lágrimas corriam por aquele rosto infantil, mas ele não precisava mais tampar sua boca, porque ela sabia que, se fizesse algum som, seu pai morreria. Aos seis anos, ela tinha nojo e medo do tio, que via com cada vez mais freqüência.

Ele morava numa pensão e teve a idéia de pedir para a mãe que deixasse Solange tomar sorvete com ele. A mãe deixou e ele passou na padaria. Depois, levou-a à pensão. Pegou uma caixa de lápis de cor novinha. “É para você”, disse. Ela não ficava mais contente com os presentes, tinha desaprendido a sorrir, estava magra e parecia mais velha. Aquele brilho em seus olhos, que persistia a despeito do que passava no colégio, desapareceu.

Queria que o tio sumisse, só pensava nisso, dia e noite. Ele tirou um lápis da caixa e colocou sobre a mesa. Sentou-se na cama do quarto imundo e minúsculo e puxou-a para si. Ela estava em pé e ele pôs a mão sob a saia do uniforme da escola. Tirou sua calcinha, afastou suas pernas, pegou o lápis e colocou-o dentro de sua vagina, fazendo movimentos bruscos. Enquanto isso, tirou o seu membro e ensinou a masturbá-lo. Quando a mão dela ficou molhada, ele parou, extenuado, suado, com cheiro de colônia barata. Ela não chorou, não falou nada, tudo o que queria era sair dali.

Com o tempo tudo piorou. Ele a amarrava, lambia, beliscava seu pequeno peito cada vez mais forte, até ficarem marcas roxas onde ninguém podia ver. Depois começou a chutá-la, sempre nos lugares onde só eles dois podiam ver, um pacto sinistro que os dois tinham. Nem eu podia vê-las. “Eu vou cortar você em pedacinhos se você falar alguma coisa para alguém. E depois mato o seu pai. Vou começar cortando os seus peitinhos e vou dar para os gatos comerem, você vai virar comida de gato. Então...” e colocava o indicador imundo no meio dos lábios em sinal de silêncio.

Solange perdeu a vitalidade, ficou pálida, anêmica. A mãe preparava suco de beterraba, ninguém entendia. Estava apática em casa e agressiva na escola. Começou a mentir sobre tudo. Quando o tio chegava, urinava seu medo na calcinha. Ele agora vinha com um saquinho de carne picada, um saquinho transparente, e olhava para ela dizendo “trouxe carne para os gatos”. Seu riso era sádico e cru.

Solange se perguntava se todas as meninas tinham tios assim e procurava nos rostos das amigas vestígios que denunciassem alguma coisa, mas não via nada. Tinha vontade de olhar o corpo das outras para ver se havia marcas roxas, as mesmas de seu corpo. Ela então começou a pensar que cumpria alguma pena, que tinha feito algo terrível e aquele era seu castigo. Seus sentimentos se embaralhavam. A tortura podia ser uma expiação por seus pecados, afinal, e ela aprendeu a olhar para aquilo como um castigo de Deus, um castigo terrível para alguma coisa mais terrível que havia feito. Ela ainda não sabia o que fizera, mas é certo que fizera. E devia ser muito ruim. Isso a confortava como um cobertor quente em noites de inverno. Cumpria sua pena. Seu tio a buscaria várias vezes e a buscaria pela mão de Deus, pensava. Suas unhas sujas a invadiam, machucavam, arranhavam, beliscavam e, às vezes, sangrava nos pequenos peitos, que ainda não eram seios. Ela não suportava o cheiro e achava que aquele cheiro era o do demônio cumprindo a vontade de Deus. Mesmo assim, mesmo acreditando em tudo isso, sentia um medo primal, tremia, suava, urinava. Vez por outra se desesperava por não saber o motivo, porque Deus o tinha guardado só para Si. Ela estava só, porque, mesmo sabendo, eu também não podia contar a ninguém. Ficava com seus pensamentos e sua mente se tornou cheia de suposições e dúvidas. Aprendeu a gostar de filmes de terror, porque se identificava e porque, no fim, tudo terminava bem. Provocava seus próprios medos, aqueles que ela podia deixar vir, porque seu pai a salvava todas as vezes que chegava. Era alívio o que seu pai trazia, apenas por estar ali, um alívio que só sentia quando seu tio ia embora, mas que logo desaparecia, dando lugar ao temor da próxima vez. Como em filmes de terror, ela sonhava que, um dia, alguém a salvaria, que tudo terminaria bem. Sentia aquele medo primal que acabaria, algo do mundo fantástico dissolveria o mal. E então os machucados cicatrizariam e sua punição teria acabado.

Sua decisão de mudar começou na escola veio de repente. Ela me disse que tiraria notas máximas dali para frente. Estava na terceira série e resolveu que podia ser inteligente e sair daquele limbo entre notas baixas e notas altas. A Madre Superiora reunia os alunos para a entrega dos boletins. Primeiro, chamava os alunos exemplares à frente entre elogios rasgados. Depois chamava os que “não estudaram, os preguiçosos” e todos, exceto eles próprios, riam. Os demais boletins eram entregues em sala de aula, sem nenhum espetáculo. Ela estudou muito naquele bimestre e conseguiu tirar Excelente (ou nota E) em todas as matérias. Seria a primeira vez que receberia o boletim com glória. A Madre Superiora chamou-a e não escondeu seu espanto. Tinha vencido, afinal. Aquele era o reconhecimento pela sua dedicação. Atravessou o longo caminho do salão com o sorriso de orelha a orelha. A Madre olhou-a de cima abaixo e deu parabéns contidos. Quando se virou para o salão lotado, a Madre acrescentou, olhando para o tênis furado e um pouco sujo, o único que tinha: “Você foi bem, mas é uma porquinha”. Todos desataram a rir. Ficou perplexa, imóvel. Atravessou o salão com o conga velho, olhando para baixo, as lágrimas incontroláveis e o barulho do tênis velho no piso encerado. Nunca mais quis tirar notas boas naquele colégio. Ficou pensativa quando chegou em casa, sem saber se era Deus ou o diabo quem a punia por seu crime hediondo, que ainda não sabia qual era.

Solange se tornou uma bela adolescente e, quanto mais bela, mais vergonha e medo sentia. Os homens mexiam com ela na rua, passavam a mão no ônibus e ela via em todos eles, exceto no pai, aquelas unhas imundas que entravam em seu corpo. Quando começou a trabalhar, aos 12 anos, os encontros com seu tio ficaram mais raros, ela não tinha mais tempo, estava sempre trabalhando e estudando.

Nada sabia das coisas de ser mulher e nem se via como uma. Então ela menstruou e pensou que tinha uma doença incurável, quem sabe causada por aquelas unhas compridas do seu tio. As primas lhe contaram o que era aquilo e sua mãe ficou sabendo que agora ela era mocinha, sem saber que já era uma mulher marcada. Sentiu uma vergonha inominável em ver aquele sangue escorrendo daquele lugar impuro, por onde entravam as unhas sujas e por onde saía a urina.

Ela nunca descobriu afinal quem a castigava. Isso durou até ela fazer 13 anos, quando explicaram para ela alguma coisa sobre sexo, as primas explicaram. Então soube que aquilo que seu tio fazia tinha esse nome: sexo. Ela se amaldiçoou mais do que antes, queria contar tudo ao padre, na confissão obrigatória, mas tinha medo que ele falasse e o pai morresse. Olhou-se no espelho e se viu velha, feia e suja. Ela era assim, aos 13 anos.

Um dia, ele a levou ao seu quarto e ela o empurrou com toda a sua força. Ele era forte, mas via-se que ficou surpreso. “Eu mato você, eu mato o seu pai”, ele dizia baixo, para não alertar os vizinhos. “Eu te mato primeiro”, ela gritou a plenos pulmões e o jogou violentamente contra a parede. Ela correu e sabia que não voltaria a sentir aquele cheiro adocicado que lhe embrulhava o estômago. “Acabou”, pensou.

Aquilo ficaria marcado em sua vida, como uma tatuagem à fogo. As cicatrizes em seu corpo podiam desaparecer um dia, mas era a alma que estava tatuada.

Solange foi à escola e seus olhos eram inquietos naquela manhã cinzenta. Suas pernas iam e vinham sob a carteira sem parar. Não falou comigo, não falou com ninguém. Suspeitei que aquele sofrimento, que aqueles anos todos estavam encarcerados em sua alma. Na saída ela me contou o que havia acontecido. Sentei ao seu lado e compartilhamos o silêncio. Havia algo de alívio, como um som sem volume, mas que se sabe estar ali.

Ela me beijou no rosto, me abraçou e sorriu: “Acabou”, disse com ternura. Eu sorri e retribuí o abraço forte, senti o seu corpo torturado por todo aquele tempo e não perguntei nada. Ficamos as duas perdidas naquele abraço e saímos de nossa prisão silenciosa sem dizer uma palavra, porque a liberdade para nós também era silenciosa.

Eu a vi de costas atravessando o portão, o cabelo imenso preso, os passos leves. Solange foi encontrada em seu porão, enforcada. Seu suicídio tinha uma nota jamais escrita: “Acabou.”

“Após olhar a besta nos olhos e pedir e receber perdão, fechemos a porta do passado, não para esquecê-lo, mas para evitar que ele nos faça prisioneiros”
Bispo Tutu.

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