| A gente nem percebe o valor das coisas na sociedade moderna, que valoriza o mais: mais afeto, mais dinheiro, mais tempo para fazer as coisas, mais, mais... Não reparamos em coisas muito pequenas, como o valor de mexer as pernas para andar, de podermos nos alimentar sozinhos. Estava apreciando meus próprios movimentos, olhando para minhas pernas se movendo e pensei: a vida é um milagre. Respirar é um milagre! Imaginem quantos músculos estão envolvidos num simples sorriso!
No budismo encontramos o princípio do contentamento. Trata-se de exercitarmos nossa capacidade de satisfação com o que temos, de valorizar essas coisas a que raramente damos atenção. Se pararmos para observar, veremos o quanto a vida é frágil e como ela se renova miraculosamente a cada dia. Quem crê em Deus poderia começar por agradecê-lo; quem não crê, pode simplesmente observar a natureza e ser grato do mesmo jeito.
Ontem assisti a um programa sobre doenças raras. Entre elas, uma me chamou atenção. Não sei o seu nome, pois o programa já havia começado quando liguei a TV. Vi que os músculos afetados se transformam em ossos. É uma das doenças atormentadoras chamadas de auto-imunes.
O sistema imunológico fica enlouquecido e ataca o próprio corpo. São doenças incuráveis, ao menos por enquanto. Uma garota de 19 anos foi afetada por essa, que transforma músculo em ossos. Ela estava totalmente paralisada, movendo apenas as mãos. Era feliz. “Tenho tudo o que preciso”, concluiu a menina ao final da reportagem. A frase me tocou, porque é uma postura mental inesperada.
Ninguém duvida do flagelo daqueles que carregam uma doença auto-imune ou doenças crônicas e degenerativas. Alguns a encaram como um fardo difícil, outros como uma oportunidade de crescimento. É difícil deixarmos que o otimismo venha quando há uma crise, mas podemos realmente encarar uma fatalidade como uma forma de aprimoramento espiritual. Então tudo nos parecerá mais confortável e os momentos mais terríveis serão mais suportáveis, enquanto que, quando estamos bem, serão dias a serem celebrados a cada hora, às vezes simplesmente pela ausência de dor ou porque conseguimos mover alguma parte do corpo. Então, ao respirarmos, saberemos que há vida e nos lembraremos de ser gratos por ela.
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