Na Itália, está em curso uma reforma no sistema educacional. Desistiram de avaliar os alunos na base de “conceitos” –bom, satisfatório, aceitável, insuficiente—para voltar ao velho esquema de zero a dez.
“É mais claro”, diz uma professora. Sobretudo, na minha opinião, expressa que o professor deixa de ter medo diante das reações do aluno. O tal “insuficiente” pode, na prática, signifcar tanto quanto um três, um dois e meio, um quatro. Mas é sinal, acima de tudo, da timidez de uma autoridade encarregada apenas, sem nenhum abuso de poder, de dizer se o aluno vai bem ou vai mal.
O eufemismo que se revela na substituição da nota pelo “conceito” não tem outra conotação, a meu ver, do que esta: o fato de que o professor está intimidado diante do mau desempenho do aluno.
Ele sabe (e o aluno também) que os resultados daquele trimestre foram péssimos. Em vez de dar nota 2, ele dá “insuficiente”. Com isso, o professor se culpabiliza e se debruça sobre o aluno, a quem seria o caso de dar mais atenção. Não sou contra que se dê mais atenção a esse aluno. Mas a nota 2 terá, sobre esse aluno, o efeito de uma chamada às suas próprias responsabilidades que o “insuficiente” anula, pela mágica do paternalismo.
Mais importante do que isso, voltou na Itália a nota de comportamento. Subjetiva, inibidora, castradora, se quisermos, do “espírito crítico”. Mas indispensável, a meu ver, numa situação escolar em que alunos ameaçam os professores de violência física, e em que a mera ameaça de suspensão não traz nenhum efeito.
Seria uma medida simples a ser adotada em qualquer colégio público ou particular de São Paulo: sem boa média de comportamento, o aluno repete de ano.
É evidente que, hoje em dia, o problema dos educadores com os alunos não se concentra no fato de haver lições mal-feitas ou de se ir mal numa prova qualquer. O problema é que é fácil passar de ano, e que nenhum professor consegue elevar sua classe do plano da barbárie ao plano da civilização; este é o principal objetivo de toda escola, e fracassa quando tudo é frouxo e complacente demais.
Idéias italianas, e, portanto, idéias de Berlusconi. Quanto ao potencial fascismo dessa proposta, diga-se que a maioria dos professores italianos são favoráveis a ela, embora protestem violentamente contra outros aspectos da reforma, que prevê violentos cortes de mão de obra.