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|Colunistas|
Gilberto Dimenstein
Artigo: Uma vida tocada na flauta
Publicado em:
31 de março de 2008
às 10h00
Uma vida tocada na flauta

O vício ia tirando Charles dos palcos; entrou, enfim, no círculo vicioso da marginalidade até ir para a rua
A flauta é o único objeto que sobrou de um fugaz passado glorioso. O resto está irreconhecível numa caverna debaixo do viaduto Costa e Silva, o Minhocão, a poucos metros da igreja da Consolação, onde mora Charles Pereira Gonçalves, na região central.
As pontas dos dedos que tiravam notas musicais estão agora queimadas pelo crack. O sopro está comprometido pela tuberculose que contamina o pulmão. Trajado com roupas sujas e fétidas, Charles, olhos vazios, desistiu de tomar banho. Parece ter bem mais idade do que seus 34 anos.
A combinação de doenças -além da tuberculose, ele está com pneumonia- deixou-o esquelético e silencioso, sem vontade de conversar. Os sons que emite vêm de uma tosse constante. Quando, porém, vez por outra, ele toca seu instrumento, voltam os fragmentos da memória dos tempos em que, ainda menino, dividira o palco com músicos como o pianista Arthur Moreira Lima, o saxofonista Paulo Moura e o flautista Altamiro Carrilho.
Altamiro Carrilho ficou tão impressionado ao ouvi-lo tocar um chorinho que comentou: "Só pode ser reencarnação". Até então, não tinha visto alguém tão jovem e sem nenhum estudo musical tocar tão bem -e muito menos acreditava em reencarnação.
O maestro Júlio Medaglia explica essa habilidade pelo ouvido absoluto, termo técnico que designa rara sensibilidade de distinguir as notas. Isso torna ainda mais difícil entender como Charles consegue viver naquela caverna embaixo do Minhocão, onde, por causa do trânsito ininterrupto de veículos, o barulho não pára.
Por muito pouco, ele não viveu em ambientes radicalmente diferentes daquele, distantes da poluição sonora do viaduto. Medaglia dizia que, com estudo, o menino se transformaria em um instrumentista de renome mundial e conseguiu-lhe como professor, na Alemanha, o primeiro flautista da Orquestra Filarmônica de Berlim. "Pode ser um dos grandes flautistas do mundo", apostou Medaglia.
Às vésperas de viajar para a Alemanha, porém, Charles começou a hesitar e a demonstrar um comportamento estranho. A droga começava a entrar na sua vida.
Quando indagado sobre o motivo por que caiu nas drogas, ele explica, entre frases confusas: "As pessoas pensavam que eu estava fora do Brasil e deixaram de me procurar. Fiquei desanimado, comecei a não ir mais para a escola e a usar drogas. Experimentei crack e me perdi".
Acompanhado de dois de seus irmãos (um deles, gêmeo), Charles tocava nas ruas do centro de São Paulo, em 1984, quando tinha dez anos de idade. Diante do talento do filho, o pai, viúvo, treinou os irmãos para buscar dinheiro na rua.
A visibilidade das ruas levou-o a gravar um disco no começo da década de 1990 e a ser chamado para shows e programas de televisão.
O vício ia tirando-o dos palcos. "Só queria crack." Começou a faltar dinheiro. Entrou, enfim, no círculo vicioso da marginalidade até ir para a rua. Ele agora se diz disposto a dar aula particular em alguma escola.
"Queria ensinar flauta para crianças pequenas." Está consciente, entretanto, de que, viciado e tuberculoso, não pisaria numa escola. "Antes preciso cuidar de minha saúde."
Seu depoimento só mostrou mesmo emoção quando ele falou de sua única criação recente, ao se referir ao filho de um ano de idade. "Nunca vi o rosto dele, mas acredito que ele possa vir a ser um grande flautista."
Talvez por causa do sonho de que o talento, desperdiçado, pudesse ser salvo no desconhecido filho, ele tirou a flauta do bolso do paletó e tocou um chorinho. Nessa vaga esperança, era como se sua vida ainda pudesse ser tocada na flauta.
Coluna originalmente publicada na Folha de S.Paulo, editoria Cotidiano.

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