| A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS : Estou terminando a leitura do livro que mais me emocionou em toda a minha vida: A menina que roubava livros . Os críticos literários teriam muitas coisas a dizer. Mas eu não sou crítico. E mesmo que fosse as minhas palavras seriam inúteis. Palavras não têm o poder de comunicar a beleza da experiência humana. Tudo o que é vida está além das palavras.
As explicações não comunicam a experiência. Alguém já disse que para se saber o que é um queijo há de se comer um queijo. Se, por acaso, o conhecedor de queijos quisesse explicar o que é um queijo a um povo que nunca viu um queijo poderia multiplicar suas explicações mas o dito povo continuaria a não saber o que era um queijo. Não posso comunicar a beleza de uma sonata, ou de um por de sol, ou de um momento de amor, com palavras. É preciso experimentar.
É o caso desse livro. Fosse um livro de filosofia ou de economia eu poderia resumir o argumento... Mas quando o que está em jogo é uma experiência o que um escritor pode fazer é apenas tentar seduzir o leitor a se aventurar à dita experiência. Ler esse livro é ter uma experiência. Tenho estado vivendo na casa onde morava a menina que roubava livros. Ela e o seu irmão haviam sido dados à adoção pela mãe. Mas o irmão morreu na viagem. A estória se passa nos tempos do nazismo: a perseguição aos judeus, os horrores da guerra e da pobreza que vai chegando, a fome, as crianças roubando batatas e maçãs para comer... E., não obstante, a alegria que teima em aparecer nos interstícios do horror.
Seu pai adotivo tocava acordeão por vocação e era pintor de paredes por profissão. Nas noites de insônia da menina ele se deitava com ela e lhe lia estórias... O primeiro furto acontecera no enterro do irmão. Um coveiro deixou cair um livro que levava no bolso: O manual do coveiro . Ela não resistiu à tentação a despeito de não saber ler. E a família alemã onde vivia tinha um judeu escondido no seu porão. Por anos ele ficou no porão, sem poder aparecer. Aí veio uma noite de bombardeio. Toda a rua se refugiou num abrigo. Menos o judeu. Ele não podia aparecer. Foi então nessa noite, quando todos estavam dentro do abrigo por causa do bombardeio, que ele se deu ao luxo de sair da sua prisão. Seu nome era Max, o judeu.
Ele conta: “ ‘ - Quando tudo ficou quieto subi até o corredor, e havia uma frestinha aberta na cortina da sala... dava para ver o lado de fora. Espiei, só por alguns segundos...' Fazia vinte e dois meses que ele não via o mundo lá fora. Foi o pai quem falou: ‘- E o que lhe pareceu?' Max levantou a cabeça, com enorme tristeza e enorme assombro. ‘ – Havia estrelas' – disse. ‘ – Elas queimaram meus olhos...”
LOBISHOMEM: É uma lenda. Ela diz que dentro de um homem bom e tranqüilo mora um lobo, fera. Mora trancado dentro de um jaula. Aparece de vez por outra quando, por razões que não se sabe, a jaula se abre e ele sai. A lenda diz que ele sai em noites de lua cheia. Mas acho que não é bem assim. Ele sai - não se sabe nem quando e nem porque. Aí, quando sai, toma conta do corpo. E o homem bom e tranqüilo, ele o tranca na sua jaula. Livre, ele é só fúria incontrolável. Esgotada a sua fúria ele retorna à sua morada dentro da jaula e o homem bom e tranqüilo retorna ao seu lugar. Os dois nunca se encontram. Nem mesmo se conhecem.
É lenda mas é verdade. Isso tem um nome na linguagem da psicanálise. É chamado de “núcleo psicótico”. Em linguagem comum: dentro de todo mundo mora um doido. Em alguns a jaula é fechada com sete chaves e o bicho não sai. Mas em outros a fechadura é fraca e ele sai. Os religiosos dão a isso o nome de “possessão demoníaca”. Os evangelhos falam de um homem assim. Era tão forte que nem mesmo as correntes mais grossas conseguiam conte-lo. O ruim dessa expressão “possessão demoníaca” é que ela sugere que o bicho é um invasor que vem de fora. A psicanálise diz, ao contrário, que ele não é um invasor, é um morador permanente do corpo, parte da gente.
Aí tomam-se as providências para eliminar o demônio. Levam o homem a um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra, nomes modernos para o ofício de exorcista. Mas o exorcista fica perdido porque o homem que está diante dele é tão manso, tão bom, fala de literatura, de arte, de crianças... Ele nada sabe sobre o lobo... Não é ele. É um outro. O lobo está dormindo na sua cela...
O SAPO E SABIÁ : Os sapos no charco, ao ouvirem o canto do sabiá, coaxaram um coro: É muito chato.
FUMAR : Parar de fumar aos poucos é o mesmo que parar de ser infiel à esposa aos poucos...
MELHOR IDADE : Chamar a velhice de “melhor idade” é o mesmo que chamar as gestantes de “virgens” e as pessoas com dificuldade de locomoção de maratonistas...
MÚSICA : No semáforo a mocinha aproximou-se com um folheto imobiliário na mão. Desci o vidro para receber. Aí ela ficou estática e se aproximou um pouco mais da janela aberta. A música que estava tocando a surpreendera. Era totalmente nova para ela. “Nunca ouvi música assim. É música antiga?” As únicas músicas que ela conhecia eram as sertanejas e as bate-estacas... Onde andará ela, a mocinha que se espantou com música clássica?
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